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Zola

Em meu texto anterior, falei sobre como o que havia de antigo no século XIX é o que mais me atrai. A vida social intensa, os contatos predominantemente pessoais, a ausência de culpa em relação aos prazeres da mesa. Não são exatamente os temas fundamentais do SteamPunk, mas acabei concluindo que a crítica com relação ao mundo atual, visto como resultado dos processos iniciados naquela época, me aproximava do movimento. Em mim, esse banzo de uma época em que meus avós ainda não tinham nascido foi causado pela leitura de livros: Eça, Machado de Assis, Proust, Balzac…

São autores que, embora estupendos, não figurariam numa lista de literatura SteamPunk. Mas, sem o saber, também já tinha entrado na seara Steam, na companhia de Julio Verne, Arthur Conan Doyle, Edgar Allan Poe e até Charles Dickens e Émile Zola. Não por acaso, eles viveram no meio da fervura, testemunhando e participando dos acontecimentos que marcaram a época. Em Machado de Assis e Eça, dos atrasados Brasil e Portugal, esta efervescência passa ao largo. Acho que o mesmo se pode dizer dos autores russos que conheço.

Qualquer um que tenha lido Julio Verne em criança foi SteamPunk sem saber. Quem nunca sonhou em viajar no Nautilus do Capitão Nemo, ou no balão de Phileas Fogg sobre a África? E entrar numa bala de canhão pra Lua? Imaginar proezas fantásticas a partir das tecnologias existentes era o que Verne fazia de melhor, expressando o espírito de uma época em que se achava que tudo era possível. Já Doyle e Poe deixaram, além de excelentes histórias, alentadas descrições sobre como se vivia na e como era a Londres oitocentista, a cidade onde quase tudo aconteceu. Londres até hoje mereceria o título de capital SteamPunk do mundo. Ainda está tudo lá, o fog, os prédios de tijolo vermelho enegrecidos pela fumaça das chaminés, o clima soturno. Até o clube para gentlemen que o Phileas Fogg frequentava deve existir até hoje.

Dickens e Zola acrescentaram uma pimenta de crítica social à coisa. Descreveram realisticamente uma sociedade que o avanço tecnológico e os confortos por ele criados eram um privilégio de poucos, garantido pelo trabalho penoso de muitos. Para ter vapor, era preciso queimar carvão, retirado de minas perigosas e insalubres a um alto custo humano, como vemos em Germinal.  Já em A Besta Humana, os personagens são quase todos ferroviários e Zola registra o impacto exercido pelo surgimento das locomotivas a vapor numa França ainda rural.

Também nas indústrias, a produção em grande escala era garantida por homens, mulheres e crianças que trabalhavam literalmente até cair. Em Hard Times, por exemplo, Dickens retrata magistralmente esse lado ruim da Revolução Industrial.

Vê-se que a ambigüidade entre fascínio e crítica com relação aos novos tempos já estava presente na literatura da época. Ao mesmo tempo em que atiçava a imaginação, a tecnologia criava problemas, e nada disso escapou à observação dos escritores. Até mesmo numa lista curtinha como a que vai acima já é possível tal percepção. Sei que omiti muitos autores, mas a lista reflete a estreiteza de minhas leituras, e por isso peço a eventuais leitores a gentileza de citar nos comentários mais livros e autores da época que sejam essenciais a uma biblioteca SteamPunk.

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